Público vs Privado

FotoOpinião de Inês Sá

Quando há mais de 15 anos entrei naquela empresa, levava a certeza de que iria lutar com todas as minhas forças para conquistar o meu espaço. Ser apenas mais uma entre tantos(as) não coincidia com a ansia de quem acabara de encontrar o seu primeiro emprego. Quando a vontade é muita, os obstáculos intimidam-se, e foi assim que pé ante pé, consegui chegar às mais diversas áreas, sem nunca passar por cima de quem quer que fosse.
Foi nesta empresa (privada,) que tive o privilégio não só de me formar profissionalmente como crescer pessoalmente. Acreditei no projeto, senti-me acarinhada, e no primeiro mês já vestia aquela camisola da cabeça aos pés! Ali trabalhava-se por um objetivo, fossem 8 ou 12 horas, sem nunca ser devido qualquer pagamento extraordinário. Em momento algum senti a ausência daquela recompensa, na verdade esta sempre chegava em forma de palavras e reconhecida consideração. Assim se ia abrindo o caminho, com trabalho, empenho, dedicação, esforço, profissionalismo e muito brio, fosse qual fosse o desafio.
Bem sei que os tempos eram outros, que a conjuntura jogava a favor, que o espírito de liderança que me caracteriza contribuía para que alcançasse, na maioria das vezes, o que almejava, mas ainda hoje continuo a acreditar que o reconhecimento e a consideração a longo prazo, valem bem mais do que um pontual acréscimo no ordenado. Foi e será sempre esta a minha escola.
Considero-me uma defensora do serviço público e até acho que muitas das privatizações que cada vez mais vão surgindo, não são a solução para o que quer que seja, a não ser para inflacionar os preços a cobrar ao cidadão comum e ceder os postos de trabalho e respetivas chefias aos interesses instalados.
Ainda assim, e embora entenda que as generalidades são sempre perigosas, a minha experiência permite-me constatar que o ritmo de uma empresa privada, não se assemelha em nada com o ritmo da vulgarmente denominada Função Pública (FP). Contudo, não tenho dúvidas que isto se sucede, não por culpa dos funcionários, até porque acho que estes são as principais vítimas do sistema, mas sim por culpa do sistema burocrático que prevalece na maioria dos departamentos, pelos sucessivos governos que fazem da FP uma moeda de troca e também pela falta de coragem e aparente desmotivação das diversas chefias. É no mínimo revoltante, os inúmeros casos de funcionários completamente desaproveitados, quer pela sua cor politica quer pela falta de empatia com a respetiva chefia, quer pela falta de investimento a que se entregou toda a máquina.
O medo apoderou-se, não só dos mais fragilizados, como também daqueles que se escondem por entre as prateleiras douradas, na esperança de um dia voltarem a ser alguém. Entendem eles que o melhor mesmo é silenciarem a sua angústia, cumprirem com o seu horário e aguardarem o final do mês para receberem o seu ordenado. Outros optam por tentar enganar o sistema, cumprindo com o relógio de ponto e ausentando-se entre as picagens, tudo em prol da certeza de que, embora sejam considerados inúteis, a vida não lhes permite manter nem o orgulho nem a teimosia. O marasmo com que se vive o dia-a-dia, a sensação de vazio, de injustiça, de comodismo e de rendição, infernizam a vida dos que ainda consideram (e bem!), que têm tanto para dar.
Já não fosse o cenário suficientemente negro, vão caindo de para-quedas e com alguma regularidade os “experts”, não pelo que fazem ou pela formação que possuem, mas porque tiveram a sorte de fazer parte dos “indicados”. Situações há, que nem eles próprios sabem bem o que vão fazer, mas sabem de cor e ao cêntimo, o que vão receber. Também não sabem que o colega que vai partilhar com eles o gabinete tem a carreira congelada, que recebe metade do que ele vem agora receber, e que ainda lhe vai dar aquela ajudinha advinda da sua já longa experiência.
Paralelamente, justiça seja feita, aos inúmeros e extremamente competentes funcionários e cargos de chefia, que se mantêm a exercer de forma exemplar as suas funções na FP, com enorme competência e rigor, contrariando o desânimo instalado. Quero mesmo acreditar que as situações que aqui retrato, não constituem, felizmente, a maioria!
Estou ciente de que nesta altura haverão algumas mentes, que mais ofuscadas pelo seu próprio umbigo, estarão a dizer que “é feio cuspir no prato onde se comeu!”. Mas a essas, e na impossibilidade de lhes dizer pessoalmente, escrevo: luto e trabalho por toda a comida que coloco em cima da minha mesa, mas nesta mesa não cabem só as minhas preocupações, cabem as de todos aqueles que me rodeiam e que comigo partilham as suas vivências.

 

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